A baixa qualidade dos Profissionais de EF.

O que mais se ouve hoje dos proprietários de academias no Brasil é a baixa qualidade profissional dos funcionários, em especial dos professores.
É normal que em períodos de crise como o que vivemos (circunstancial e estrutural), procurar passar a culpa para alguém. Totalmente humano e compreensível. O único problema com isso é que NÃO RESOLVE OS PROBLEMAS.

Eu estou no mercado há 33 anos. Não posso, e ninguém realmente pode, afirmar que antes os profissionais eram melhores, mais engajados, mais comprometidos, etc. Por que isso como dizem os gringos seria comparar “orangesandapples”. As academias mudaram, o consumidor mudou, o mercado mudou, tudo mudou. São quase infinitas variáveis, o que impossibilita afirmar que o problema é a qualidade dos profissionais.
Arrisco-me, no entanto, a dar alguns palpites (é um vício) para tentar ajudar as interpretações:
– na década de 80, quando comecei, e quando muitos dizem que os professores eram melhores, comprometidos, etc., o professor de aulas em grupo ERA O CENTRO DA PORRA TODA! A ginástica de grupo estava explodindo e ministrávamos aulas diariamente para 80-150 pessoas! As áreas de musculação eram um “canto” nas academias. Não havia 30 mil academias. A concorrência era infinitamente menor. Não havia também tantos professores de academia. Será que os professores de musculação da época eram melhores que os de agora? Não sei. Não dá para saber! Eles não tinham praticamente nenhuma importância para o negócio. Quando você é o centro da porra toda e dezenas de pessoas vão às suas aulas todos os dias, você SE SENTE o centro das coisas, e só se for muito estúpido não tentará fazer o seu melhor;
– na década de 90, isso começou a mudar. A musculação começou a encher e a área dedicada a ela a crescer dentro das academias (em tamanho e em importância). Não me lembro dos proprietários reclamando dos professores da musculação nessa época. Tradução até aqui: sala cheia (seja qual for a sala) resolve todos os anseios;
– no final dos 90 e início dos anos 2000, surgiram (e bombaram) as aulas pré-coreografadas (Body Systems/Les Mills). Aulas em grupo cheias novamente. A reclamação agora era de que esses professores eram muito convencidos, se achavam, não tinham compromisso com a empresa, etc. Exatamente como os professores da década de 80. Nós também nos achávamos. “Ah, Tadeu, mas vocês tinham compromisso com a empresa”. Sim. Sabe por que? POR QUE SÓ HAVIA UMAS 5 EMPRESAS, e só 2 predominavam por aqui: Runner e Cia Athletica! Ou você “brilhava” em uma ou na outra. Só. Nos anos 2000 já havia muitas academias. Muitas opções para o profissional que se destacasse. Simples assim.
– e agora na 2ª década dos 2000, tudo está diferente também: a ginástica de grupo morreu (de novo), a musculação já não tem o apelo que tinha junto aos consumidores e os treinamentos curtos, intensos, funcional, etc. estão em ascensão rápida e fulminante. Do ponto de vista dos consumidores (e há quanto tempo avisamos isso…), academia é tudo igual e portanto vou escolher a mais barata. A mais barata hoje não é mais um lugar ruim, meio sujo, com equipamentos de 2ª categoria e manutenção a desejar. É uma instalação nova, com equipamentos importados, bons vestiários, etc.
Atenção proprietário: você está desanimado e reclamando de tudo por que com raras exceções, NÃO ACOMPANHOU A MUDANÇA e só tentou reagir a ela quando (talvez) já era muito tarde. Pequenas academias (estúdios) de treinamento funcional, boxes de crossfit, estão cobrando R$ 400,00 mensais para dar às pessoas não aulas, mas TREINOS. O verbo treinar que já tinha substituído o “malhar” na boca das pessoas, nunca foi tão verdadeiro.
Nesse novo mundo os professores voltam a ser o centro da porra. Em instalações com vãos abertos, poucos equipamentos, muitos acessórios, o treino está na mão deles novamente. E isso é bom para o mercado. As pessoas agora podem escolher entre treinar ou se exercitar. É um mercado maior que antes. Uma parte dos consumidores está disposto a pagar o triplo do que pagava em uma academia para ter esse tipo de instrução nos treinos “funcionais”, ou como queiram chamar, e uma outra (maior) parte continuará procurando as academias para se exercitar. Só que em instalações melhores do que antes e por preços mais baixos.
Nós sempre quisemos que os professores tivessem um “lado empreendedor”, que entendessem as dificuldades de um negócio, não é? Então, agora uma parte deles entende. Entende que não dá para ganhar dinheiro dando “aula” de musculação ou bodycombat (somente como personal). Sério que devemos culpa-los? Qual o maior salário que um professor pode ganhar na sua academia? De verdade, sem conversinha. Mesmo que suba todos os degraus da sua empresa (coordenador, gerente)? Pensou em um valor? Você acha que alguém quer ficar lá o resto da vida para chegar no topo por esse valor? Compare com um trainee de qualquer empresa maior. Compare com o valor que você gostaria que seu filho ganhasse quando tiver 30 anos de idade.
ISSO ACONTECE EM QUALQUER MERCADO! Os hospitais gostariam que os médicos fossem todos excelentes e de alta qualidade, mas não podem pagar além de um determinado limite. E não sei se você já percebeu: há médicos ótimos, bons, ruins e péssimos. E em geral eles não trabalham no mesmo lugar ou da mesma forma. Por que a Educação Física seria diferente? Ou qualquer outra profissão?
Enquanto você põe a culpa na qualidade dos profissionais, a Smartfit montou 300 academias com esses mesmos profissionais. “Ah Tadeu, se eu tivesse toda aquela grana do banco”. Faria o que? Pagaria melhor os professores? A maior crítica à Smartfit nas redes sociais é de que paga muito pouco a hora/aula! Não é esse o diferencial, certamente. Você quer acreditar que a diferença é a grana, mas não quer entender que a compreensão das expectativas da maior parte dos consumidores é que foi a diferença. A compreensão de que o mercado estava mudando rapidamente e que há uma nova realidade.
Como dizia o imbatível Peter Drucker: “não adianta fazer muito bem feita a coisa errada”.
A crise econômica que o país atravessa (herança maldilma) leva à simplificação das análises. “Eu tôfudido por que ninguém tem dinheiro”, mas quando ela se dissipar a realidade vai dar uma murro na fuça de quem ficar só esperando. Você perceberá que tudo mudou e os clientes estarão voltando, mas para outros lugares, não a sua academia.
Por fim, sardinha um pouco pro meu lado agora: muitos proprietários dizem que seus professores não se atualizam, não fazem cursos, etc. Quantos cursos você participou nos últimos 2 anos? No seminário que fizemos com o Thomas Plummer há 1 mês, e que muitos acham que foi um “divisor de águas” havia 200 pessoas. Você estava lá? Entre os 200 havia pelo menos uns 20 (10%) professores, donos de estúdios ou pretendentes a montar um. Sinal dos tempos…

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