Academias fechando

Amigos, nesta semana mencionei em 2 posts que iria abordar a situação do enorme número de academias fechando no Brasil desde o ano passado e aparentemente intensificado neste 1º semestre. Vamos lá:
– sim, é um número enorme. Infelizmente não temos estatísticas nem disso, mas temos a percepção e as informações de todos que navegam nesse mercado. Semana passada em contato com uma pessoa do ramo de equipamentos semi-novos, que está há muito tempo atuando, ouvi que “nunca vi uma situação como esta” e “toda semana pelo menos 3 ou 4 me ligam dizendo que estão fechando e para oferecer os equipamentos”. Não é uma estatística, pode haver algum exagero, mas não é diferente do que temos sentido e visto;
– temos no momento uma combinação “matadora” de crise conjuntural (a economia que está uma merda, a herança maldilma, como tenho chamado) com crise estrutural (que é a mudança radical pela qual passam todos os negócios e em particular o de academias);
– breve história da inclinação da curva para o fundo do poço: desde meados dos anos 90 (pós Plano Real), o mercado de academias vinha crescendo significativamente e muitos alegres empreendedores investindo. Já na metade da 1ª década dos anos 2000, porém, o consumidor estava mudando, e muita gente não percebeu. Em 2010 surge no BR o 1º modelo lowcost de academia, e grande parte dos operadores tradicionais deu de ombros: “ninguém quer treinar sem professor, só os marombas, isso só funciona nos EUA, etcetc etc. Quando por volta de 2015/15 a vaca econômica começou a mostrar que estava no brejo (já tinha ido bem antes), e mais de meio milhão de ninguéns estava treinando nas academias que só iam dar certo nos EUA, o pessoal começou a sentir o drama de verdade. Não adiantava mais continuar abaixando o preço, as margens tinham ido pro saco, e os clientes continuavam desaparecendo;
– por falar em margens, quem está há mais tempo no mercado, deve lembrar-se (e chorar), e quem é mais recente, fique sabendo: nos anos 80 as margens eram ridiculamente altas (até acima de 50%), mas a concorrência era pequena. Nos anos 90, já com a concorrência crescente as margens ainda chegavam a 25-35%, nos 2000 começaram novamente a cair, principalmente pela formalização do mercado (tradução juramentada: pagar impostos) e foram lá para os 15-20%; atualmente em academias tradicionais o povo está se estapeando para chegar aos 10%. Recentemente, inclusive, eu e outros desocupados do mercado cunhamos uma estatística de mesa de bar: atualmente uma academia tradicional, porte pequeno/médio, que ofereça fitness (ginástica e musculação) não sobrevive com 500 alunos (que já foi algo razoável) e com 1000, sofre para ter lucro e o dono passa a maior parte do seu tempo pensando em cortar mais custos;
– “professor, só vão sobreviver as lowcost então?” Essa é uma pergunta que qualquer dono de uma traininggym bem posicionada daria risada ao ouvir. Tenho 2 academias clientes em São Paulo que se encaixam nessa categoria e que amam as lowcost pois quanto mais tem, mais eles se diferenciam. Uma delas tem receita mensal de mais de 400 mil reais. Mas a realidade é que ainda vai fechar muita coisa. Inclusive várias low cost. Quando o vendaval da economia cessar, o novo consumidor irá procurar as academias novamente, mas não aquelas academias dos anos 90, que mudaram a cor da fachada para se “reposicionar”. Pensem em uma pessoa de classe C ou B, jovem (20-25) que recentemente começou a pensar em entrar em uma academia. Como você acha que é o conceito de academia na cabeça desse cara, pelo que ele vê acontecendo ao redor dele? Na minha opinião só pode ser uma de duas coisas: academia é um lugar cheio de equipamentos, que custa entre 60 e 90 reais por mês, você vai, treina e quando precisar pergunta pra um professor sobre o treino. OU, academia é um espaço cheio de cordas e pesos livres e uns acessórios pelo chão, onde você vai e treina forte, e o professor vai te puxando para você dar o máximo e ficar sarado, e custa 250-400 por mês.
– Você (e muitos irão) pode achar que eu estou louco. Mas pergunte a alguém que não seja do mercado (pessoas normais) na sua família, como um/a cunhado/a ou primo/a nessa faixa etária e até uns 35 anos, quanto ele acha razoável pagar em uma academia. Dependendo do que ele/a disser, você automaticamente saberá que tipo de academia está na cabeça dele/a. Pouquíssima gente nesse perfil irá responder “uns 150 reais” . Pense agora que são essas pessoas que estarão nas academias nos próximos 20 anos. E entram no mercado com uma percepção completamente diferente dos que entraram há 15-20 anos;
– Enfim, não quero ser dono da verdade de modo algum. Mas acho que está na hora de parar de ufanismo e começar a discutir a realidade do momento e do mercado. Acho inclusive que essa depuração será saudável no futuro, pois teremos um mercado mais profissional, onde o cliente será levado mais a sério. Quem sobreviver poderá repensar o negócio do ponto de vista do cliente, o que aumenta muito a chance de prosperar.

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